A sola da bota, silênciosa como de costume, anda enquanto
a mente vaga pelo corredor sem volta da biblioteca.
Com a mão na maçaneta respiro antes de entrar.
Minhas vestes pretas e pesadas se iluminam na luz da lareira
quente.Passo a mão no cabelo rebelde tentando não
parecer tão desleixado.
Como de costume a cadeira estofada em couro vinho estava vazia. E
isso, num subto instante de felicidade anunciava que Amanda estava
de bom humor.
-Pensei que tinha perdido o gosto pela biblioteca Coruja.
A voz descontraida, vinda do segundo andar, de trás de um
grosso e surrado livro intitulado " Sonhos e Pesadelos", parecia
apropriada para o momento.
-Estive ocupado.
-Salvando criançinhas indefesas ou destruindo mais
Patrimonios Publicos? - Não pude deixar de notar o sinismo
das ultimas palavras.
-Na verdade, era justamente sobre isso que eu queria
conversar.
Me analisando por um instante - Vai me pedir aumento também?
- O Allan concerteza já havia passado por lá
antes de mim.
-Não, vou pedir mais trabalho.
Ela desce os degrais circulares enquanto a lareira crepitava ao
lado da mesa de carmim.O globo encima da mesa refletia a luz do
lugar.
Tirando a lareira, o luar que atravessava a janela entre aberta era
a unica iluminação da biblioteca.
-Nos ultimos tempos, eu tenho me incomodado com o fato de
não dormir. Não me sinto cansado, e por isso queria
aproveitar mais o meu tempo. Treinar mais. - Dobrava os dedos nas
costas tentando não parecer tão ancioso.
-As missões periodicas que vocês quase nunca
completão com susseço não bastam pra preencher
a sua folha de pagamento Coruja? - O andar flutuante parecia me
provocar mais do que as palavras - Por que se for esse o caso,
não estou disposta a dar mais desculpas aos meus
contribuintes sobre bens que desaparecem, estradas que explodem sem
nenhum motivo, ou civis que veem homens alados durante o dia.
-Nós estamos tentando nos adaptar a nova rotina de super
agente - Em parte ela estava certa, mas o dificil era explicar como
as coisas pareciam planejadas. Simplesmente aconteciam, e eu na
maioria da vezes, levava a culpa por ser o mais despreparado -
Não tem como controlar...
- É sua obrigação ser cauteloso. A sorte dos
três é que eu não tenho tempo de treinar mais
um ou dois agentes pra subistituição - Enquanto
falava cerrava os olhos ameaçadoramente - Caso contrario
já teriam sido expulsos da corporação. Sera
que é pedir de mais um pouco mais de cautela?
Já deixei avizado ao allan e vou falar com o Nelson pela
amanha. Não quero mais erros. Não quero mais
improvisos. Não quero mais irresponsabilidade!
O silêncio invade a sala.A essa altura eu quase me esquecia
do motivo da visita.Tentava tristemente lembrar de uma vez em que
ela se sentiu satisfeita com as nossas missões.
Tudo bem que era mais facil quando estavamos na CIA. Uma
corporação menor pede medidas menores. Mas agora, as
proporções eram catastróficas. Nada parecia
sair como o planejado. E isso era um tanto incomodo.
-Mas acho que você não veio aqui pra levar bronca... -
Agora sorrindo ela se sentava em sua cadeira e me indicava a
cadeira vaga a sua frente. Por que sera que ela tinha um humor
tão instavel? - ...Contime o que voce quer.
Sento na cadeira tentando parecer o mais confortavel possivel, e enquanto ela pousava o livro grosso na mesa de marfim eu analisava cada sentimetro daquele rosto rosado antes de prosseguir. Me sentia mais seguro antes da bronca, mas não custava nada tentar. O cabelo castanho ondulado as vezes me distraia enquanto a luz do luar sintilava as suas variações de tonalidades.
- Quero permissão pra sair em missão por conta
própria... - As palavras saltavam muito mais rapido do que
eu imaginara - ...Sem o Allan ou o Nelson.
Fisgando a minha impaciencia ela se abre em um sorriso
malicioso.
- Tipico.Mas... - Inclinando-se mais para a frente enquanto cerrava
os olhos - ...Por que?
Agora ela estava tão perto de mim que eu quase podia sentir
o cheiro da sua pele - Autonomia - Disse ignorando o sinismo - Acho
que me saio melhor quando estou sozinho. Percebi isso na ultima
missão.
- E se eu precisar de você no tempo em que estiver longe? -
Apoiava graciosamente o queijo nas mãos unidas pelos dedos
numa espressão tentadora.
- Prometo estar sempre por perto. Afinal de contas, eu sempre
estou...
Foi uma sorte que a biblioteca estava pouco iluminada, caso
contario ela concerteza teria percebido o meu rubor.
Sendo assim... - Não desviava os olhos dos meu, mas mesmo
assim, ela parecia relutante - ...Voce Tem a minha
permissão.
Não pude deixar de expor meu sorriso fino - Não
pensei que você fosse deixar. Parecia tão mais brava
antes - Tentava parecer igualmente sinico enquanto insinuava
expanto gesticulando com as mão no ar.
- Voce veio aqui e fez um pedido simples. Mas não pense que
eu não vou impor regras... - Apesar da atitude previsivel,
tentei parecer surpreso com a afirmação, não
queria estragar o momento egocentrico que raramente eu podia
apreciar na Amanda - também tenho minhas exigencias.
O silencio pairava antecedendo o esporro, enquanto a lareira, ainda
crepitante, aquecia aquele olhar cheio de autoriadade.
Não sabia quanto tempo já tinha se passado naquela
conversa. Mas em relação a liberdade, o meu conforto
era tão grande comparado a primeira vez que eu estive ali,
que não conseguia mais me sentir incomodado na
presença da Amanda. Acho que estava começando a gosta
daquela companhia, e no fundo, em uma visão mais ampla e
otimista, podia dizer que ela também tinha se acostumado com
a minha.
Num suspiro profundo o momento descontraido acabara na mesma
velocidade com que eu viajava em meus pensamentos.
- As regras vão servir tanto pra você sozinho quanto
pra voce acompanhado. Nada muda, só não vai receber
pela hora extra...
- Sim..
- ... Sempre que mudar de missão tem que me avisar onde e
quando, para possiveis contatos...
- Sim...
- ...Se você se machucar nas suas missões, não
tera a assistência da Barbara. Se é "autonomia"
que voce quer - o sarcasmo agora era evidente - Vai estar por
conta própria. E se fizer algo errado... - Engoli em seco
-...Vai responder por voce mesmo. Não fara parte da agencia
enquanto estiver sozinho.
- Concordo - Apesar do medo eu estava certo naquilo que eu queria e
não voltaria atraz na minha decisão. Nem com tantas
exigencias.
Ainda tentando assimilar as ultimas informações minha mente vagava pela biblioteca.
- Mais alguma coisa Coruja? - Ela desvia os olhos cor de ambar dos
meus enquanto voltava a abrir o livro grosso.
- Não. Acho que já falei tudo que eu queria - Na
verdade, estava pensando em algo convincente pra continuar aquela
conversa tão "agradavel"...
- Muito bem, então esta dispensado. - ...Mas, era evidente
que a conversa já tinha acabado - Quando sair feche a porta
por favor.
Agora, fitando as paginas do livro, envolta em facinio ela ignora
minha presença e se entrega a leitura.
Me levanto devagar observando a figura intrigante. Como ela
conseguia ser tão bonita mesmo na penumbra, onde mal podia
se ver o contorno do rosto? Como ela conseguia sustentar uma figura
tçao atraente e arrogante ao mesmo tempo?
Essas eram respostas que eu nunca me atreveria a descobrir.
Num momento seguinte me distraio decidindo se saio pela porta ou
pela janela, afinal de contas, estava dispensado.
Agora de costas para a mesa, passo as mãos pelos livros das
estantes laterais fazendo o caminho rotineiro até a porta
também de marfim. O cheiro de pagina velha me lembrava dos
bons momentos que eu havia passado ali enquanto agregava um pouco
mais de cultura a minha mente as vezes tão surreal.
Era lá onde eu me refugiava dos tiroteios, torturas e
arranhões.
Um lugar confortavel e com boa companhia.
Um lugar que se assemelhava a sensação gostosa de
dormencia que eu sentia todas as raras vez em que me sentia em
casa.
Onde na maioria das vezes eu me pegava oscilando entre a vontade de
ficar e a nessecidade de ir embora.